Demonstração de que não existe número natural entre dois naturais consecutivos

Olá! Eu faço bacharelado em matemática e, neste semestre, estou cursando Análise 1.

Um dos primeiros exercícios que meu professor de Análise passou foi:

Neste post, vou resolver esse problema com todos os detalhes — e aproveitar para discutir uma ideia fundamental sobre os números naturais.


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O Princípio da Boa Ordenação

Como toda demonstração, partiremos de uma afirmação mais fundamental para demonstrar o que queremos.

A afirmação mais fundamental que usaremos nesse caso é o Princípio da Boa Ordenação, que é praticamente um axioma dos números naturais.

O Princípio da Boa Ordenação (PBO) afirma:

Todo subconjunto não vazio de $\mathbb{N}$ possui um menor elemento.

Isto é, todo subconjunto não vazio dos naturais possui um elemento que é menor ou igual a todos os outros elementos do subconjunto. Além disso, esse menor elemento é único.

Por exemplo, o subconjunto dos naturais $A = \{x \in \mathbb{N} \mid 2 < x < 10 \}$ é não vazio e portanto, pelo PBO, possui um menor elemento, que nesse caso é o 3.

Um princípio bem razoável, certo? Então bora usá-lo para resolver o exercício.

Lema: não existe natural entre 0 e 1

Para resolver o exercício precisamos antes demonstrar o seguinte lema:

Não existe número natural entre 0 e 1.

Prova (por absurdo):

Suponha por absurdo que exista pelo menos um número natural entre 0 e 1. Então, o conjunto $A$

\[ A = \{x \in \mathbb{N} \mid 0 < x < 1 \} \]

é não vazio.

Segue, do PBO, que existe um menor elemento $r$ de $A$, isto é

\[ r = \min A \]

Como $r \in A$, temos que

\[ 0 < r < 1 \]

Multiplicando essas desigualdades por $r$ obtemos que

\[ 0 < r^2 < r \]

pois $r > 0$, então a multplicação não inverte o sinal de menor.

Agora observe:

  • Como os naturais são fechados para a multiplicação, $r^2 = r \cdot r$ é natural;
  • Além disso, pelo fato de $r < 1$, segue por transtividade que $r^2 < 1$ e portanto $r^2$ está entre 0 e 1.

Mas então $r^2$ é um elemento de $A$ que é menor que $r$. Isto é um absurdo, pois contraria a minimalidade de $r$. Portanto, nossa suposição estava errada, e segue que não existe número natural entre 0 e 1.

Demonstração principal

Agora que provamos o lema acima estamos prontos para provar que:

Dado um natural $n \in \mathbb{N}$, não existe natural $x$ tal que $n < x < n+1$.

Prova (por absurdo):

Novamente, suponha por absurdo que existe $x \in \mathbb{N}$ tal que

\[ n < x < n+1 \]

Então, subtraindo $n$ dessas desigualdades obtemos

\[ 0 < x-n < 1 \]

Como $n < x$ temos que $x-n > 0$ e portanto

\[ x-n \in \mathbb{N} \]

Mas $x-n$ está entre 0 e 1, e acabamos de provar que não existe natural entre 0 e 1. Logo, chegamos a um absurdo.

Isso quer dizer que nossa suposição era falsa e, portanto, que não existe número natural entre $n$ e $n+1$ para todo $n \in \mathbb{N}$.

Comentários

Este resultado formaliza a ideia de que os números naturais são discretos. Isto é, que não existe “números intermediários” entre dois naturais. Esta é uma diferença em relação aos números reais, pois entre dois reais existem infinitos números reais. Uma forma chique de dizer que os naturais são um conjunto discreto é dizer que os naturais não possuem pontos de acumulação.

Este é o segundo post em que uso o PBO aqui no blog, sendo esse o outro post:

Demonstração do Teorema de Bézout usando o Princípio da Boa Ordenação – Quarto 707

No entanto, lá eu usei o PBO para os inteiros, e não para os naturais como foi feito aqui. No caso dos números natuais, o PBO é equivalente ao princípio da indução matemática, mas no caso dos números inteiros isso não é verdade.

Referências

Curso de Álgebra Volume 1 – Abramo Hefez


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